O que a dopamina tem a ver com o tempo que você perde no celular? 

O que a dopamina tem a ver com o tempo que você perde no celular? 

Juliana Diniz Malheiros

Professora e Neuropsicóloga

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O que a dopamina tem a ver com o tempo que você perde no celular? 

 

Você está trabalhando ou estudando, mas abre o celular pra responder uma mensagem e rapidamente se distrai. Uma notícia chama sua atenção e logo após um post interessante sobre uma celebridade que está em voga. Naquela mesma página, há um anúncio de um produto que você já estava precisando ou que parece bom demais. E após um tempo, você se dá conta que perdeu um tempão com algo que não era prioridade no momento.

 

Quando você fica preso no celular lendo uma notícia, rolando o feed de uma rede social ou passando de um anúncio para outro, seu cérebro é constantemente exposto a novos estímulos. Esse tipo de experiência é altamente atraente porque mantém ativa a expectativa de encontrar algo ainda mais interessante no próximo conteúdo. Nesse processo, entra em ação o sistema de recompensa do cérebro, do qual participa um neurotransmissor bastante conhecido, a dopamina. Ao contrário do que muitos imaginam, ele não está relacionado apenas ao prazer, mas também à motivação e à aprendizagem, ajudando o cérebro a identificar quais comportamentos merecem ser repetidos.

 

Para entender mais sobre o assunto, vou citar um artigo de Diederen & Schultz (2021), intitulado Dopamina: Erro de previsão e além. Nesse artigo, a ideia central é que "os neurônios dopaminérgicos sinalizam erros de previsão de recompensa, fornecendo um sinal de ensino para a aprendizagem." Deixa eu explicar isso em termos mais simples: A quantidade da dopamina varia de acordo com a diferença entre a recompensa esperada e a recompensa recebida. Quando o resultado é melhor do que o esperado, ou seja, um vídeo engraçado ou um blogueiro falando de um produto que te interessa, ocorre um aumento da atividade dopaminérgica, o que reforça aquele comportamento. Por outro lado, se a recompensa acontece exatamente como o cérebro previa, a resposta é menor, pois não há novidade a ser aprendida. Esse mecanismo funciona como um sistema de aprendizagem, ajudando o cérebro a julgar quais comportamentos vale a pena repetir.

 

Pode-se dizer então que o doomscrolling (ficar rolando a tela) ou qualquer outra coisa que você clica que te leva a uma outra novidade é extremamente apelativo. O nosso cérebro “gosta” do que é inesperado, de uma resposta que você não podia prever. Quando o feed é rolado, há sempre um assunto variado, um meme que te remete a algo na sua infância, por exemplo, ou algo que você se identifica. No momento isso é muito prazeroso e te prende, mas não é muito legal para sua mente. Voltando ao artigo, o que ele explica é que a dopamina sinaliza erros de previsão de recompensa, ou seja, ela ajuda o cérebro a aprender quando algo é melhor do que o esperado. Se você se surpreende, você quer ter mais daquela sensação.

 

Não estou dizendo que a dopamina ou o celular são os vilões dessa história, mas temos que concordar que o que a gente gosta muito nem sempre é que precisamos no momento. Pegar no celular e ficar muito tempo vendo coisas que não são prioridade pode roubar muito tempo valioso quando temos um objetivo mais importante. E se nosso cérebro é treinado todos os dias a receber novidades a cada poucos segundos, atividades de recompensa tardia, como estudar, passam a exigir um esforço maior. 

 

Como resolver essa questão? Bem, o celular e as redes sociais não vão desaparecer e não tem como parar de usá-los, pois são uma parte integrante de nossa vida agora, mas há certas precauções que você pode tomar para que seu estudo ou trabalho não seja afetado por causa disso. Aqui vão algumas soluções que podem ajudar:

 

Diminua as oportunidades de distração - A força de vontade ajuda muito, mas o ambiente é essencial. Se você sabe que uma notificação pode iniciar um ciclo que vai durar muito tempo, seria muito bom desativar as notificações ou deixar o celular fora do seu campo de visão por um tempo.
Crie pequenas recompensas para você mesmo - Esse é um método que eu sempre ensinei para meus alunos e funciona. Procure criar pequenas metas ao longo da sessão de estudos.  Exemplo: se eu resolver um conjunto de questões ou compreender um tópico difícil, posso dar uma pausinha para tomar um café ou conversar por cinco minutos. Isso pode diminuir a tentação de se distrair nas redes sociais.
Use recursos e aplicativos que vão te ajudar a acumular conhecimento - O celular é parte do nosso dia a dia, então por que não usá-lo para algo mais produtivo? Existem apps sobre história, idiomas e raciocínio que podem somar no seu conhecimento geral sobre as coisas. Em vez de gastar longos períodos consumindo conteúdos que pouco acrescentam aos seus objetivos, procure reservar parte desse tempo para ferramentas que realmente promovam a aprendizagem. 


Para fechar, eu acredito muito que quanto mais você conhece a sua mente, mais preparado vai estar para ir melhorando o seu comportamento na rotina de estudos e ajustando o que precisa para estudar melhor. Você não precisa abandonar o celular ou as redes sociais, mas decidir intencionalmente o quanto tempo vai dedicar a eles. A dopamina que faz com que você não queira parar nunca de ver a próxima notícia ou o próximo post, também é um neurotransmissor essencial para o aprendizado. É ela que ajuda o cérebro a reconhecer quais experiências são importantes, fortalece a motivação e contribui para que novos conhecimentos sejam consolidados. 

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